República Tcheca

República Tcheca domina Wimbledon e revela uma fábrica de campeãs sem igual no tênis mundial

República Tcheca domina Wimbledon e revela uma fábrica de campeãs sem igual no tênis mundial

ALL ENGLAND CLUB, Londres - Tudo começa, como quase sempre no tênis feminino, com Martina Navratilova. Meio século depois de ela ter deixado a Tchecoslováquia para triunfar no mundo, o país que ela abandonou ainda produz campeãs em série - e neste Wimbledon 2026, a herança se materializou de forma impressionante: dois dos quatro semifinalistas do torneio feminino são tchecas, Linda Nosková e Karolína Muchová, que podem protagonizar uma inédita final toda-tcheca na grama londrina.

Um país de apenas 11 milhões de habitantes colocou quatro jogadoras no último 16 do torneio e responde por quase 20% das cinquenta melhores tenistas do mundo. É um fenômeno esportivo sem comparação em qualquer outra nação de porte similar - um paralelo que, curiosamente, lembra a forma como coletivos menores podem surpreender com viradas históricas, como confira a virada da NAVI na IEM Atlanta 2026, provando que tradição e método formam a base de qualquer legado competitivo duradouro. No tênis tcheco, a tradição é o alicerce - e o método, como se verá, é o que diferencia.

A linhagem que Navratilova inaugurou

Navratilova ganhou nove títulos de simples em Wimbledon, sete de duplas femininas e quatro de duplas mistas - números que ninguém, homem ou mulher, sequer se aproximou. Quando desertou para os Estados Unidos em 1975, as meninas que a observavam na Tchecoslováquia começaram a sonhar. O que veio a seguir foi uma cadeia geracional extraordinária: Hana Mandlíková, Helena Suková, Jana Novotná, Petra Kvitová, Karolína Plíšková, Barbora Krejčíková, Markéta Vondroušová e Kateřina Siniaková - todas vencedoras de Grand Slams ou ex-número um do mundo. Com exceção de Plíšková, Suková e Siniaková, todas ergueram o prato de Wimbledon. Plíšková chegou à final em 2021; Siniaková tem três títulos de duplas na grama londrina.

Krejčíková, campeã do torneio há dois anos e eliminada por Muchová na quarta rodada desta edição, resumiu bem o peso dessa herança: "Cem por cento foi uma motivação enorme para mim", disse a jogadora de 30 anos, referindo-se à tradição tcheca como combustível para sua própria carreira. Ela mesma escreveu uma carta para Jana Novotná aos 18 anos - e Novotná acabou se tornando sua treinadora.

Nosková e Muchová: campeãs apesar do legado, não por causa dele

O paradoxo fascinante de Nosková, 21 anos, e Muchová, 29, é que elas cresceram praticamente alheias a toda essa história. Nenhuma das duas foi criada para ser tenista. Muchová teve pai e irmão como jogadores profissionais de futebol e praticou vários esportes antes de se dedicar ao tênis. "Acho que só descobri o que era um Grand Slam quando já era adolescente", admitiu ela, que terá pela frente Coco Gauff na semifinal. Nosková, por sua vez, tinha entre seis e oito hobbies simultâneos na infância - ginástica, equitação, "todos os esportes do mundo", nas suas palavras. Kvitová era a única tcheca que ela conhecia de nome, por ter vencido Wimbledon em 2011 e 2014 e estampado capas de revistas e outdoors no país.

Ambas tiveram que pesquisar ativamente o passado glorioso do tênis feminino tcheco quando começaram a ter resultados expressivos. "É sinceramente impressionante quantas meninas tchecas conseguiram vencer aqui", disse Muchová. A leveza com que carregam esse legado - como referência, não como fardo - pode ser exatamente o que as liberta para jogar com a audácia que demonstram.

O modelo tcheco: jogar pontos, não fazer drills

Navratilova explicou a diferença com clareza numa entrevista recente. Nos Estados Unidos, jovens tenistas passam horas e horas em drills repetitivos, batendo bolas perfeitas lançadas por treinadores. Na República Tcheca, as crianças jogam pontos, games e sets desde cedo. Aprendem a construir pontos, a competir dentro do fluxo real de uma partida, a decifrar adversários com seu próprio repertório. E fazem isso principalmente no saibro, superfície que exige e amplia exatamente esse raciocínio tático.

Krejčíková detalhou o ambiente: "Temos muitos torneios, competições por equipes, simples e duplas todo fim de semana. Treinamos uns contra os outros nos clubes, com muitas crianças participando. Há práticas em grupo." É um ecossistema de competição constante, não de repetição isolada. O resultado aparece na quadra: todas as jogadoras tchecas dominam um repertório variado - potência e toque, bola de fundo e rede, fatia e voleio. Na quartas, Nosková destruiu Elise Mertens (6-3, 7-5) com uma exibição que incluiu aces, saques sem resposta, drop shots precisos e um voleio de backhand que encerrou um ponto após Mertens ter cruzado uma passante de qualidade.

A mais jovem semifinalista desde Kvitová

Ao avançar às semifinais, Nosková se torna a mais jovem tenista a estrear em uma semifinal de Grand Slam em Wimbledon desde 2010 - e o nome que encerra essa comparação é, claro, Petra Kvitová. A mesma Kvitová que ela enfrentou duas vezes aos 18 anos, que conheceu pessoalmente e de quem admite ter aprendido muito. No primeiro contato com uma quadra de grama, em Nottingham, foi Barbora Strýcová - ex-número um do mundo em duplas e bicampeã de Wimbledon na modalidade - quem a ajudou a encontrar o ritmo. "Eu estava completamente perdida", lembrou Nosková. "Ela tinha todos aqueles grandes resultados no saibro... foi difícil acompanhar seu ritmo."

Hoje, ela não está perdida. Está nas semifinais de Wimbledon, com 21 anos, prestes a encontrar Muchová numa possível final que seria a mais tcheca de todas. Navratilova plantou uma semente em 1975. Mais de cinco décadas depois, a colheita ainda não parou.